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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Até onde queres chegar?!


(crónica de Sofia Loureiro)

No desporto, como em todas as áreas da vida, várias questões nos deveríamos colocar antes de tentar justificar o porquê de tantas vezes não se atingir os resultados que se pretende alcançar.

Vive-se tantas vezes e durante tanto tempo abaixo do limiar dos sonhos… Não se luta pelos sonhos… ou, na verdade, nem se sabe que sonhos são esses… porque não se acredita… porque é tão mais cómodo culpar alguém… a família, a/o namorada/o, o/a treinador/a, colegas, o governo, o mundo, a “vida”…

Se perguntarmos a tantos/as atletas “Quem achas que tem responsabilidade nos resultados que tens tido?” ou ainda “Quem ou o quê gostarias que mudasse para chegar onde queres?” as respostas passam por: estou numa fase de baixo rendimento, são as lesões, estou emocionalmente frágil, gostava de ter mais velocidade, de jogar noutra equipa, ter outro/a treinador/a, que a família apoiasse mais, que a federação/o governo nos desse mais incentivos… e a lista seria bem mais recheada  (mas depois a crónica ficava muito extensa e o pessoal tem mais que fazer!).

Estas e outras questões devem ser trabalhadas desde muito cedo no percurso de qualquer pessoa, mas em particular de todo/as quantos/as pretendem ter uma carreira de conquistas na prática desportiva. Podemos acreditar na proteção divina, na sorte e no destino, mas não há realização e concretização sem atitude e compromisso pessoal. Mesmo para ganhar numa raspadinha, no mínimo tem que raspar os símbolos ou pedir a alguém que o faça!!!! Em conclusão… tem que se agir, fazer algo!!!

Sei que pode soar duro este discurso e ainda por cima em época natalícia, mas chamem-lhe amor firme… por gostar tanto desta área e por tanto acreditar no potencial de quem quer tornar sonhos em realidade, me parece a melhor altura para vos oferecer estas “palmadinhas” de motivação.

Ninguém atinge uma meta, nem realiza um sonho, esperando pela mudança dos outros/as ou do contexto de vida. Ninguém muda nada nem ninguém se não se mudar antes demais a si próprio/a. E mudar de atitude, mudar de comportamento dói?! Sim… um pouco. Dá medo? Também. Mas são estes medos que impedem de avançar. Que limitam e bloqueiam a ação. Que impedem a liberdade, a vontade, a realização de sonhos. São estes medos que fazem escolher a desistência, seguir atalhos “atabalhoados” para percorrer caminhos que não se podem cortar, sem risco de acidentes e coordenadas trocadas.

Neste Natal, época em que os afetos se atrevem a ter lugar de destaque, em que as emoções conseguem escapar ao escrutínio do racional, em que se avizinha um novo ano cheio de boas intenções e novas metas… atrevam-se a questionar-se sobre a responsabilidade pessoal para conseguirem o que querem.

E em jeito de mimo e prendinha embrulhada com ternura, aqui ficam palavras soltas que espero que o vento não leve para longe e que escrevam diariamente na vossa agenda de 2017: Sonho… Visão… Determinação… Paixão… Entrega… Vontade… Orgulho… Compreensão… Perseverança… ACREDITAR…

Feliz Natal e façam o que ainda não tiveram coragem de fazer!

Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em  Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva

domingo, 20 de novembro de 2016

E para quando treinar a mente?


(crónica de Sofia Loureiro)

O desenvolvimento e aperfeiçoamento de treinos com linhas muito bem definidas para estimular física e tecnicamente atletas é mais do que evidente a nível nacional e local. Técnicas, estratégias, equipamentos, planos, ritmos, tempos, medidas e objectivos cientificamente estudados e testados, que se comprovam em resultados surpreendentes e consistentes nas mais diversas modalidades. Estas estratégias são integradas diariamente ou várias vezes por semana nos treinos…

Mas pergunto … e quantas vezes por semana se treina a mente e as emoções dos/as nossos/as atletas? Quanto tempo se dá ao tempo, para identificar fragilidades de uns e de outras? As resistências? Os medos? Os bloqueios? Quantos treinos especializados são preparados com base científica, para que atletas descubram o seu poder? Que se desafiem cognitiva e emocionalmente nas suas crenças, valores e memórias? Quantos treinos lhes permitem explorar auto estratégias que vão verdadeiramente potenciar desempenhos?

A preparação física é essencial… um bom treinador/a, uma equipa técnica coesa e estruturas/equipamentos adequados, são indubitavelmente essenciais ao sucesso pretendido… financiamento, apoio social e familiar, idem, idem, aspas, aspas… Nem se põe em questão nenhum dos aspectos anteriores. Mas porque é que tantas promessas jovens ficam aquém do que o seu potencial antevia, quando a maioria dos factores referidos estão assegurados?

Não basta talento, técnica, paixão, disciplina física e persistência.

Corpo são em mente sana

Atletas bem preparados/as, que crescem, que se superam perante obstáculos e frustrações, que redefinem objectivos após insucessos e lesões, que não desistem mas que aprendem a viver cada dia como uma conquista do sonho… São atletas com uma boa preparação psicoemocional. O treino mental ajuda a que os recursos naturais e o talento se libertem das tensões e das resistências relacionadas com a ansiedade ou com variadíssimas questões que bloqueiam o melhor desempenho. 

É importante parar e reflectir sobre estas questões:

Atletas são pessoas

Pessoas são mais do que talentos

Pessoas têm recursos e fragilidades

Treinar atletas para o sucesso é mais do que ganhar competições

Muitas conquistas se conseguem após se dar tempo para pensar, aproveitar o momento e recuperar a espontaneidade de se ser quem se é!

Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em  Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

E quando menos se previa, a desilusão acontece! … Ou não!


(crónica de Sofia Loureiro)

Continuando a aproveitar o ritmo dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016 e depois de vários dias com surpresas boas, emoções ao rubro e acontecimentos inéditos, o foco desta crónica mantém-se na alta competição e nos imensos aspetos psicológicos e sociais relacionados com o tema.

Temos tido a possibilidade de acompanhar nas mais diversas modalidades, novas marcas, novos records, atletas com provas dadas a manterem e surpreenderem (ou não) pela consistência da excelência de performances e novos atletas a surgirem com toda uma nova energia e objetivos iguais aos dos seus adversários: atingir o rendimento máximo! Superarem-se a cada prova! E, se possível, trazer uma medalha olímpica para a sua nação!

Temos assistido de olhos e coração colados aos ecrãs, às prestações de atletas de países com menos (ou nenhuma) tradição no “medalhário” a conquistarem o seu lugar na elite das elites do desporto mundial. 

Sabemos que quem alcança os “mínimos” para estar nos Jogos Olímpicos, treinou, esforçou-se, sacrificou-se, empenhou-se 365 dias por ano, ano após ano, para melhorar técnicas, tempos, marcas e acima de tudo, atingir um rendimento e um desempenho de nível superior. Só assim conseguem estar nas competições mais desafiantes, mais relevantes e ao lado de atletas que apesar de seus adversários, são também companheiros imprescindíveis para esta viagem na superação de metas e desafios.

Era bom que ninguém sequer colocasse em questão que as horas e horas de treino (de atletas, treinadores e equipa técnica), que os sacrifícios, as lesões, as dores, têm como grande objetivo a melhor prestação possível nas competições mundiais como são o caso dos Jogos Olímpicos. 

Por isto e muito mais, me parece importante alertar para os julgamentos de valor que facilmente se ouvem nestas alturas, sobre a desistência de atletas nas provas ou sobre os seus “maus resultados”. 

Vejamos: no desporto de alta competição não podemos esquecer que estão os melhores dos melhores e por isso mesmo com provas dadas do seu valor, por quem os sabe de facto avaliar. Mas porque deram prova do seu valor e porque se encontram em competição por si e pelas suas nações, o ambiente é naturalmente de muito maior exigência e complexidade.

Se por um lado este é o desafio e objetivo máximo para cada atleta, é também a altura de maior tensão/stress. É o momento por excelência, em que atletas de qualquer ponto do mundo, sexo, religião ou convicção, percecionam que estão a ser julgados, postos à prova e que o seu valor poderá ser ou não certificado pelos seus pares, por treinadores, pelo seu país e pelo mundo inteiro. 

Não há nenhum atleta imune aos momentos críticos da alta competição. Todos/as os/as atletas que chegam a este nível de rendimento, já passaram por contrariedades que lhes são alheias (avarias e imprevistos nos equipamentos e/ou da responsabilidade da organização, condições atmosféricas, lesões). Todos/as os/as atletas  já sentiram dificuldades em gerir as suas próprias emoções, em gerir a pressão e o medo de falhar nos seus objetivos.

Muitos conseguem de forma corrente e sistemática lidar com estes desafios e frustrações. Muitos/as conseguem controlar estes receios e ultrapassar os piores resultados, alcançando novas metas, superando-se de novo, uma e outra vez. Outros têm mais dificuldade em lidar com o medo e com os insucessos (que afinal fazem parte do desafio) e de forma repetida vão desistindo e perdendo a confiança nas suas capacidades. Perdem o foco. Desconcentram-se. Mas atenção… a maior parte dos atletas tem uma atitude positiva. Senão vejamos: os Jogos Olímpicos não tinham tantas histórias de vencedores consecutivos em diversas modalidades. E quando se fala em vencedores não se limita a fasquia aos/às medalhadas, mas a todos/as quantas e quantas vezes são convocados para representarem os seus países por serem os melhores entre os melhores.

É pois importante trabalhar a gestão do stress, a motivação e as estratégias mentais para lidar com as competições e tudo o que as rodeiam antes, durante e depois. Este deve ser um trabalho coerente e integrado com toda a parte de treino físico, técnico e tático. Um trabalho continuado e individualizado. Porque cada atleta é único na sua história de vida e na sua personalidade.

Acreditem que a GRANDE maioria dos atletas tenta realmente por todos os meios, voltar a ser eficaz em competição mesmo depois de não ter alcançado o resultado desejado ou esperado para a sua forma física e para o seu “valor de mercado”. 

Acreditem que os atletas portugueses em quem depositávamos a esperança de uma medalha, sofreram mais que os 11 milhões de concidadãos juntos quando realizaram esse sonho pessoal e coletivo.

Acreditem que tal como muitos, mas refiro o Nelson Évora em particular, cada um/a desses atletas está agora a olhar para a sua prestação menos conseguida, como um impulso para se superarem amanhã.

Acreditem que cada um deles precisa e merece um grande OBRIGADA de todos nós!

Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em  Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Ídolos do desporto… mais do que um exemplo uma motivação para a vida


(crónica de Sofia Loureiro)

Num ano em que os portugueses se têm enchido de orgulho por consequentes conquistas, vitórias e confirmações do sucesso de várias promessas na prática desportiva em inúmeras modalidades, é de facto de grande relevância refletir sobre uma ou duas vertentes da importância destas pessoas que pelo seu esforço, empenho, resiliência e talento fazem vibrar uma nação adormecida pelo desânimo aprendido.

Num ano repleto de competições desportivas nas mais variadas modalidades, de âmbito local, nacional e internacional, que culminam este Verão com os Jogos Olímpicos, não falar de ídolos e do seu impacto na vida de crianças e jovens seria uma oportunidade perdida. 

Qual a importância dos ídolos na motivação para a prática desportiva para crianças, jovens e até adultos? Ter um ídolo no qual se revêm pessoal e socialmente tem influência na adesão à prática desportiva? E na estruturação da sua personalidade e construção de identidade? Um ídolo tem impacto no desenvolvimento de maiores capacidades ao nível da resistência ao fracasso e à frustração? Estas e muitas mais questões podem e têm sido exploradas permitindo um contínuo desafio ao desenvolvimento de estratégias de motivação, integração psicossocial de crianças e adolescentes.

A literatura científica oferece-nos estudos em domínios mais abrangentes ou mais específicos, nas mais variadíssimas áreas, procurando de forma cruzada e interligada explorar o impacto de vários fatores no desenvolvimento pessoal e no percurso de crianças e jovens. A título de exemplo, estas investigações internacionais cruzam a percepção que crianças e jovens têm sobre a prática desportiva, as eventuais mudanças que a adesão a uma determinada modalidade proporciona nas suas rotinas, nos seus interesses e no seu percurso de vida, com a contribuição que um ídolo do desporto tem quer nos aspetos anteriores quer na resiliência de crianças e jovens.

Se para uns e outras a palavra resiliência é já um conceito a que se habituaram na sua prática profissional, importa ainda assim clarificar o que significa nas áreas do comportamento humano, na construção da identidade e no percurso existencial de cada pessoa. Resiliência é pois um construto que se define como a capacidade pessoal de adaptação com sucesso a fatores de stress continuado ou agudo. Para mais facilmente se entender a abrangência e importância da resiliência, podemos pensar nas muitas pessoas que vivendo por períodos longos em contextos hostis, de perigo e ameaça à própria vida (o exemplo atual dos refugiados da Síria ou mesmo dos sobreviventes dos campos de concentração da II Guerra Mundial), que conseguem superar as dificuldades e apresentar padrões adaptados de normalidade. Estas muitas pessoas têm elevados níveis de resiliência e por isso ainda que com todo o sofrimento (a muitos inimaginável) vão conseguindo sonhar, sorrir e manter objetivos para atingir.

Como em todas as áreas, na prática desportiva, é possível comprovar a existência de uma relação positiva entre esta e a resiliência. Trocando por miúdos!!!… A prática desportiva regular, nas mais diversas modalidades, pode contribuir e muito, para que promover e desenvolver maiores níveis de resiliência e estabelecer objetivos acionado-se para os atingir. 

Atletas de várias faixas etárias, mas em particular os/as mais jovens e em fase de estruturação da sua personalidade, vão desenvolvendo vários pontos de identificação com treinadores/as e colegas. Este processo de identificação e de criação de laços,  incrementam a adesão e motivação para uma prática desportiva regular, bem como trabalhar em equipa e gerir conflitos - muitas das subcompetências relacionadas com a resiliência. 

Para além dos/as próprios/as treinadores/as e colegas mais experientes, os ídolos que observam nos meios de comunicação e que acumulam sucessos como atletas de alta competição, constituem-se como modelos positivos para os demais jovens praticantes. 

Com exemplos de persistência, talento e profissionalismo como Quaresma, Eder, Cristiano Ronaldo e Joana Marchão no futebol, Telma Monteiro e Miguel Vieira no judo, Emanuel Silva e Francisca Laia na canoagem, Marta Pen, Jessica Augusto, Nelson Évora, Lenine Cunha (atleta português mais medalhado de sempre) no atletismo, Joana Calado e Diogo Carvalho na natação, Gustavo Lima e Sara Carmo na vela, Rui Costa no ciclismo, entre muitos/as outros/as atletas e modalidades, as crianças e jovens ganham um maior incentivo para a prática desportiva e uma maior motivação nos vários parâmetros da vida em geral. 

Estes ídolos, alguns com histórias de vida semelhantes às de muitos outros/as  portugueses/as, através da sua persistência e desempenho, apresentam-se como pessoas bem sucedidas e com valores morais e sociais que são assimilados, transmitindo esperança e desafios de auto-superação. Há pois um processo de identificação por parte das crianças e jovens com esses ídolos e que combinado com competências e talento, empenho, uma boa equipa técnica e bons treinos, facilitará a estabelecer metas para as suas vidas, quer ao nível desportivo quer na sua formação pessoal e social. 

Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em  Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Desporto e ambiente... dois em um... Desafio inicial!


(crónica de Sofia Loureiro)

A atividade física e o desporto praticados ao ar livre têm sofrido um incremento significativo em geral e sem dúvida que os benefícios são mais que muitos. É do conhecimento comum que qualquer atividade física/desportiva tem como principal potencial, proporcionar aos seus praticantes a adoção de comportamentos saudáveis e de estilos de vida mais equilibrados, com base num qualquer tipo de movimento e exercícios motores. Também está mais que provado que a prática de exercício físico regular e estruturado contribui de forma muito positiva para a qualidade de vida, ou seja, para aquilo que cada pessoa avalia em termos de grau de satisfação e bem-estar geral para a sua existência.

Interessante é pensarmos que as modalidades desportivas e atividades físicas praticadas ao ar livre e o seu potencial para esta noção de qualidade de vida e bem-estar emocional e físico, assumem uma enorme dimensão e responsabilidade, se tivermos em conta o estilo de vida da maioria das culturas ocidentais. Basta fazer um retrato a um dia da vida de uns ou de outros… quando grande parte da população, de qualquer geração, vive em apartamentos ou moradias num bairro geometricamente definido e com espaços bem delimitados. Quando as principais horas de luz solar são passadas dentro de estruturas de cimento, betão e com sistemas de ventilação e aquecimento artificiais. Quando os quilómetros de casa para o trabalho, da escola para casa são sentados em carros, autocarros e outras caixinhas móveis. Quando o convívio e a comunicação humana é teletransportada…

Sim?! Qualquer prática desportiva é positiva, combate o sedentarismo e promove a saúde. Claro! Mas as praticadas ao ar livre, em áreas descobertas, no contacto com o meio ambiente, com a natureza, assumem uma relevância especial perante os fatores expostos anteriormente. E nomeando apenas alguns:

A prática desportiva/atividade física ao ar livre permitem que (em horários corretos e com a devida proteção para a pele) haja uma maior exposição à luz natural o que favorece a diminuição de stress, o tratamento da depressão, da ansiedade e combate o isolamento social.

O contacto com a natureza (vegetação, cursos de água, espécies animais, vento, sol, chuva) favorece as capacidades sensoriais e afetivo-emocionais. Por outro lado e não menos importante, neste contacto com a natureza as pessoas saem das suas caixinhas de betão e de comunicação via web e percebem no concreto a beleza e riqueza do planeta terra.

São já muitos os estudos sobre as mudanças climáticas e ambientais que defendem que a educação ambiental para ter um impacto efetivo na consciencialização e na mudança de atitudes, necessita que as pessoas experienciem e vivam contextos reais com a natureza. É por isso mais fácil sensibilizar e responsabilizar quem pratica atividades físicas ao ar livre, para a importância da proteção do ambiente, para a proteção do planeta que é nosso. O desafio que deixo a professores de educação física, treinadores, desportistas e amantes da prática desportiva ao ar livre, é que façam uma campanha dois em um e pratiquem desporto contribuindo de forma ativa para a preservação do único planeta onde a vida é a como a conhecemos.

Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em  Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva

sexta-feira, 18 de março de 2016

Desporto para todos e com todos


(crónica de Sofia Loureiro)

Todos os dias defendemos a integração e a inclusão daqueles/as a quem chamamos de minorias ou pessoas em situação de vulnerabilidade. Prefiro o termo inclusão porque é muito mais vasto e tem um alcance abrangente, que se consubstancia na igualdade e na oportunidade para cada um/a e para todos/as.

O processo de inclusão deverá ter sempre em consideração e como pilar essencial, que cada um/a tem interesses, paixões, motivações e características específicas e que todas estas devem ser consideradas ao longo do processo que se pretende inclusivo.

Inclusão também implica que tenhamos consciência de nós próprios, das nossas forças e das nossas fraquezas, dos nossos limites para melhor percebermos e respeitarmos as dos outros. E assim a aprendizagem e o crescimento é mútuo! Isto é inclusão!

São muitas as diretivas internacionais, europeias e nacionais que visam a inclusão, nomeadamente de pessoas com deficiência. Mas continuamos a verificar muita dificuldade na adaptação de processos, métodos e nas atitudes, que possibilitem de forma efetiva o verdadeiro acesso à igualdade de oportunidades e resultados, das crianças e jovens, com necessidades especiais.

A escola inclusiva, o desporto inclusivo, a sociedade inclusiva obriga a muitas responsabilidades e mudanças, onde de facto se deitem por terra as redes do preconceito, da caridade, da exclusão e da falsa “integração”. Porque incluir é mais, muito mais do que integrar. Numa sociedade com processos e sistemas articulados que visam a inclusão, é objetivo principal que nenhuma característica, limitação ou dificuldade específica se constituam como barreiras à aprendizagem ou ao sucesso de cada um e de cada uma.

A verdadeira e única inclusão é aquela que transforma as diferenças em riquezas, criando ferramentas e adaptando estratégias para alcançar a igualdade na diferença.

Também no desporto, da inclusão se espera muito mais do que juntar num mesmo grupo crianças e jovens com ou sem qualquer deficiência. Também é muito mais do que “permitir” que as crianças portadoras de uma qualquer especificidade ou limitação física ou cognitiva, possam aprender com as outras a viver e a tentar adaptar-se a uma qualquer prática desportiva. Não!!! A inclusão implica a adaptação do mundo que os rodeia às suas particularidades, a inclusão tem que promover a participação ativa e a autodeterminação com base num verdadeiro sentido de justiça e igualdade de oportunidades. As mesmas oportunidades para aprender. As mesmas oportunidades para competir. Os mesmos prémios. Os mesmos desafios… mas adaptados às reais necessidades de uns e outras.

Olhando para o lado sem virar a cara, será que a inclusão está a acontecer? Ou a retroceder??

Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em  Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Burnout e Desporto


(crónica de Sofia Loureiro)


O burnout trata-se de um quadro clínico já bem estudado e identificado nos profissionais de saúde e empresas, bem como noutras profissões ditas de “ajuda”. Por se tratar de um síndrome com sintomatologia e características psicológicas e fisiológicas, não foi fácil identifica-lo no mundo do desporto, por se confundirem alguns sintomas com aspetos considerados “normais” na prática desportiva.

O conceito de burnout é de origem inglesa e consiste na junção das palavras “burn” e “out”, em que uma significa “arder” ou “queimar” e outra “fora” ou “para fora”. Pelo facto da tradução em português não traduzir facilmente o real significado clínico, que no fundo se aproxima mais de um esgotamento e de uma exaustão, passou a ser usado o termo inglês na generalidade dos países.

Na área do desporto apenas há cerca de duas décadas é que surgiram estudos que procuraram identificar e aprofundar as questões de burnout nos profissionais de desporto. Interessante também verificar que muitos destes estudos se focalizaram nos atletas e treinadores, mas também os existem relativamente quer a árbitros e até elementos dos órgãos de direção dos clubes, confirmando que estas classes profissionais são de facto muito propensas a sofrer desta síndrome.

O cansaço, o stress, as lesões mais frequentes, a baixa de rendimento, a desmotivação, a irritabilidade, o desânimo e muitas vezes a desistência de uma carreira são os principais aspetos a ter em conta. Por isso é de grande relevância que aceitar e reconhecer que o quadro clínico em questão se pode diagnosticar no mundo do desporto. Assim, aprofundando conhecimentos sobre esta questão, podem promover-se movimentos de prevenção, trazendo ganhos tanto ao nível do rendimento e satisfação dos profissionais de desporto, mas também e essencialmente ao nível da sua saúde física e psicológica.

Outro aspeto a realçar é que os estudos e as evidências científicas não se focalizam apenas no/na atleta, mas salientam a existência do quadro clínico de burnout em árbitros/as, treinadores/as e diretores/as desportivos. Este será seguramente um tema a debruçar com mais detalhe em próximas crónicas.

Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em  Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Desportos radicais! Motivações e prazeres...


(crónica de Sofia Loureiro)


São muitos os desportos e atividades radicais que captam cada vez mais adeptos/praticantes. Estes desportos têm como principal referência o facto de na sua prática estarem diretamente associados a aventura, o risco e, claro, um certo extremismo.

São desportos que respondem a quem gosta e precisa de viver experiências desafiantes, emoções fortes, procurando ultrapassar limites e superar-se a si em situações de risco. 

Algumas destas pessoas mantêm uma vida diária com rotinas mais ou menos entediantes, de reunião em reunião, atrás de secretárias ou de ecrãs de computadores de última geração, horas e horas sem conta, que se despem desse seu papel aos fins-de-semana e vestem um fato de mergulho ou “abraçam” um paraquedas, libertando um lado destemido, aventureiro e muitas vezes de desafio à própria vida.

Talvez também este crescente interesse por estas práticas desportivas, se relacione com tudo o que caracteriza o quotidiano da maioria da população do mundo ocidental. O tempo que ninguém controla, as vezes sem conta que se reprimem emoções e se esquece de suspirar ou gritar “chega”!

Na realidade, os desportos radicais permitem libertar de forma mais intensa emoções como a frustração, o stress e mesmo a raiva. Mas acima de tudo, quem pratica estes desportos fá-lo pelo risco do que é extremo e que afasta e assusta muitos outros. Pela busca de um prazer de superação. Um prazer centrado em si mesmo pela capacidade de desafiar a vida, a sua própria vida.

Como aspetos psicológicos interessantes de salientar, para além das motivações subjacentes às práticas desta atividades, queria ainda salientar a forma como quem os pratica encara o medo. Perguntaríamos se estas pessoas não sentem medo?! Seguramente que sim, mas um dos principais desafios é esse! Controlar o medo e tirar prazer dessa superação e de todos os obstáculos e riscos inerentes à situação. Por outro lado, estes/as praticantes desenvolvem excelentes capacidades ao nível da perceção, atenção e concentração, funções cognitivas essenciais à sua sobrevivência e à sua segurança.

Porque o objetivo afinal é… voltar a fazer o mesmo noutro sítio, noutro momento com outros riscos e convém estar vivo para que tal possa acontecer! 

Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em  Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Porque é Natal, vá de brincar...


(crónica de Sofia Loureiro)

Brincar, brincar, brincar, brincar…

As crianças brincam pouco. Os adultos também… Daqui a umas horas, as casas enchem-se de prendas tecnológicas que são desejos de crescidos e menos crescidos, fruto de um mundo digital e mais ou menos virtual do pronto a comer… pronto a fazer… pronto a ter prazer, sem mexer pouco mais que um ou dois dedos!

Que relação tem esta conversa com desporto e psicomotricidade?! TUDO!

O exercício físico, o desporto e o desenvolvimento psicomotor não são mundos à parte de toda a realidade que produzimos e da qual somos produto!

Para que as crianças possam exercer a sua capacidade de pensar, de criar, de querer ser e de se descobrir é essencial que haja diversidade nas experiências que lhes são oferecidas em casa, na escola, nas associações e clubes desportivos, sejam elas mais diretamente dedicadas para as brincadeiras ou para as aprendizagens que ocorrem por meio de uma intervenção direta.

Porque brincar não é mais do que a linguagem através das quais as crianças mantêm uma ligação imprescindível com o que na vida é o “não brincar”! Este é um aspeto com “A” maiúsculo porque tem um impacto sério no desenvolvimento integral infantil. Brincar é algo inato, que acontece no plano da imaginação e que implica a utilização de competências essenciais como a da linguagem e jogo simbólico. Simplificando e “descomplicando” isto quer dizer que as crianças precisam ter consciência da diferença que existe entre a brincadeira que estão a fazer e a realidade que lhes deu o conteúdo para a sua concretização. Então, para brincar, as crianças conseguem percecionar e incorporar elementos da realidade com que se confrontam e atribuir-lhe novos significados, usando a imaginação para imitar a realidade que vivenciaram. Quando se brinca, as vozes, os gestos, os objetos utilizados, os espaços onde se circula têm outro significado e valem o que a criança quer para além do que aparentam ser aos olhos do adulto.

No ato de brincar, as crianças sabem que estão a brincar! Sabem que estão a recriar os acontecimentos que viveram direta ou indiretamente e assumem papéis. Brincar a bater os pés, brincar a fazer vozes que recriam e assumem diferentes personagens, brincar que se voa ou que se é professor/a, treinador/a, brincar que se é bailarina/o ou cantor/a, brincar de cozinhar ou de escrever cartas de amor ou de desejos ao Pai Natal, mesmo quando ainda não se passou a fase dos grafismos… promove a autonomia, a criatividade, a autoestima e progressivamente ajuda a criança a entender a realidade e a integrar os modelos de vida adulta.

Por isto e muito mais… é bom que os adultos também consigam voltar a brincar. É bom que os adultos entendam que os conhecimentos e a incorporação da realidade nas crianças se faz quando usam os conhecimentos que têm através da imitação das experiências que vivem, das pessoas com quem convivem, dos livros que lhes são lidos, dos jogos de consola que jogam, dos passeios que fazem, dos filmes a que assistem...

Os modelos que têm na sua vida são essenciais para os recursos que vão desenvolvendo.

A brincar, a brincar… a questão é muito séria! A brincar de forma autónoma e livre, as crianças vão criando estratégias de resolução de problemas. O espaço e o tempo de brincar permitem que a criança experimente de forma própria e protegida o seu mundo e que procurem compreender as pessoas, as emoções e muitas aprendizagens do dia a dia.

É mais fácil ser uma criança feliz e saudável quando se pode brincar livremente! É seguramente verdade que se será um adulto equilibrado, saudável, determinado, autónomo, com consciência de si quando se pode brincar… em criança sim! E quando em “crescido/a” também”!

Feliz Natal e vá lá de brincar esta noite, amanhã e um bocadinho todos os dias!

Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em  Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Dia Internacional de Eliminação da Violência contra as Mulheres... 25 de Novembro... e no Desporto, ela manifesta-se como?


(crónica de Sofia Loureiro)


Dia 25 de novembro é desde 1999 a data escolhida pela ONU, para alertar e sensibilizar as pessoas, as comunidades e toda a sociedade, para uma das piores e persistentes formas de violência em todo o mundo – a exercida sobre raparigas e mulheres. Estima-se que uma em cada três pessoas do sexo feminino sejam vítimas de uma qualquer forma de violência.

Englobam-se aqui todas as formas de violência, desde os maus tratos e agressões físicas, psicológicas, económicas, sexuais, mas também culturais e estruturais. Discriminações e crenças que permitem que ainda hoje metade da população mundial, seja em grande parte sujeita a inúmeras formas de desrespeito pelos mais variados direitos humanos.

No desporto como é que isto se manifesta? Sobre várias formas de discriminação e desrespeito pelo princípio da igualdade. Quando a muitas raparigas e mulheres em todo o mundo, lhes continua a ser negada ou dificultada de forma subtil, a oportunidade de mostrar o seu mérito como atletas ou em qualquer profissão ligada ao desporto. Alguns exemplos… o caso das raparigas/mulheres que tentam singrar no desporto associado ao sexo masculino, nomeadamente no futebol e no boxe? Como treinadoras? Na arbitragem? Nas direções dos clubes desportivos? Nas federações?

Mas mesmo as raparigas e mulheres que vão conseguindo singrar nas suas modalidades, as vitórias alcançadas são geralmente menos valorizadas pois ainda competem num meio onde os homens têm um maior protagonismo, vencimentos mais altos (quando existem…) e prémios mais elevados.

Também os media dão muito menor visibilidade às competições femininas e de forma mais grave ainda no que respeita aos atletas paraolímpicos, mas isso ficará para uma outra crónica. É claro que felizmente tem havido algumas mudanças e muito se tem feito no panorama local, nacional e internacional, mas até se atingir a plena igualdade de direitos, de oportunidades e de resultados há um longo caminho a percorrer. A discriminação revela-se e manifesta-se hoje em dia nas baixas taxas de participação das raparigas e mulheres no desporto em geral, mas em principalmente em determinadas modalidades ainda dominadas pelos estereótipos de género. As mulheres têm sérias dificuldades em projetar e construir uma carreira desportiva a que se dediquem exclusivamente e cabe a cada um/a de nós pensar e agir para que estas mudanças sejam mais ágeis e mais efetivas. Aproveite estes dias… para começar a fazer diferente.

Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em  Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Prevenir o desistir


(crónica de Sofia Loureiro)

Ao longo da vida todos nós desistimos de várias coisas, às vezes é força, outras fraqueza, mas tem sempre subjacente, muitas razões que maioritariamente insistimos em não querer ver. Sabemos por experiência comum, que conhecemos inúmeras pessoas que desistem da prática de modos de vida saudável, em particular do exercício físico regular. Uns ao fim do primeiro mês, outros meses depois… Entre adultos a principal justificação apontada é … o tempo, ou antes, a falta dele.

Já noutros momentos, por um ou outro tema, me referi à motivação. Conceito aparentemente simples e que usamos de forma corrente no nosso quotidiano. Mas, de simples, nada tem e por isso se insiste que para se fazer exercício físico com continuidade é necessário motivação.

Manter uma dieta alimentar correta, alterar rotinas e hábitos de vida para melhorar a qualidade de vida e praticar exercício físico tem na sua base acima de tudo a motivação. Aquilo que nos faz iniciar e manter uma atividade física e o que nos leva a desistir da sua prática, tem estado na base de inúmeros estudos. Mas, se relativamente aos adultos, nos preocupa esta “desistência resistente”, é sobre os jovens que me quero debruçar na crónica de hoje.

O percurso de um praticante de desporto em qualquer modalidade, ou na maioria delas, é considerado curto e por isso se tem vindo a apelar que quanto mais cedo a criança ingressar na base, melhor terá probabilidade de alcançar o sucesso ou mesmo o profissionalismo. O que na realidade nem sempre corresponde!

Ainda assim, dos muitos milhares de crianças que iniciam uma modalidade desde a sua base, poucos alcançam um nível profissional e poucos/as também são os/as que experimentam sucesso e sentido de eficácia. Verificamos que muitos jovens acabam por desistir da prática desportiva, não só por todo o processo (naturalmente) seletivo de praticantes/atletas que se rodeia de características de grande exigência, pressão, stress e competitividade, mas também pela consequente ou relacionada incapacidade pessoal/familiar do jovem para corresponder a tais parâmetros.

Para a estabilidade e continuidade na prática desportiva, as crianças e jovens para além de características motoras particulares, tem que conseguir desenvolver qualidades técnicas específicas, mas também cognitivas e emocionais (atenção, resolução de problemas, definição de objetivos realistas, resiliência, etc).  Ainda que desde cedo, as crianças passem muito tempo a praticar uma qualquer modalidade, muitas vezes o seu esforço não é compensado e a sua motivação depressa é ameaçada e a palavra “desistir” a inculcar-se no pensamento. O abandono da prática desportiva é pois um assunto sério e que deve ser pensada por todos… pais e mães, treinadores, professores de educação física, psicólogos, entre outros.

Deveremos ter em atenção os desejos, as expetativas, os ideais da criança e do jovem. Mas também aquelas expetativas que lhe são incutidas, mas que não correspondem de facto às suas, mas a outros significativos (pais, irmãos, professores…) e que contrariam a sua identidade em formação.

Quanto mais a criança ou o jovem se encontrarem conscientes dos seus próprios ideais, sonhos e das suas competências, mais motivados poderão estar. No fundo, a motivação equivale a um estado interior, emocional, que desafia o interesse e a ativação para uma qualquer atividade. Se uma criança/jovem se encontrar emocionalmente envolvido, aciona-se, tem um objetivo, uma direção a seguir e vai manter-se mais facilmente nesse caminho, mesmo perante dificuldades e obstáculos.

Sabe-se da análise de dados que alguns dos principais motivos para a manutenção da prática desportiva após os primeiros anos são o prazer que é proporcionado, o sentimento de realização pessoal, o sucesso ou a procura dele, o desafio de se superar e atingir melhores resultados e claro, o gosto pela competição. Em síntese, todos estes fatores estão relacionados com fatores motivacionais chamados intrínsecos, ou por outras palavras, que vem de dentro, do próprio.    

Na realidade, a “diversão” é mais valorizada pelas crianças e jovens que a própria “técnica”, o que nem sempre é valorizado pelos adultos com responsabilidade na vida destes pequenos atletas e refiro-me a pais, professores e treinadores. Por seu lado, os mesmos estudos apontam como principais razões para o abandono da prática desportiva (que ocorrem em média entre os 12 -17 anos), a conciliação com a escola/estudos, outros interesses que entretanto surgiram, falta de tempo para estar com amigos e a falta de diversidade dos treinos/monotonia, associada também à falta de diversão nos treinos.

Estes dados deverão servir para refletirmos - professores da educação física, treinadores, outros profissionais e pais – para promover a motivação, interesse e envolvimento de acordo com os interesses e mudanças naturais na vida de cada criança e jovem, procurando assim diminuir as taxas de desistência da prática desportiva regular. 

Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em  Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Yoga e Tai Chi desporto ou complemento terapêutico?


(crónica de Sofia Loureiro)


O Yoga e Tai chi com fundamentos nas filosofias orientais, são práticas desportivas que usando movimentos precisos que se processam em transições lentas, numa coordenação entre músculos, ossos, pensamentos e emoções, apelam e realçam a energia positiva que envolve cada pessoa. Apesar de partilharem alguns objetivos, existem também algumas diferenças, que não me atrevo a elencar e que deixo a quem de direito! Ainda assim, a reflexão que hoje partilho, surge pela cada vez maior procura que se sente na população por este tipo de práticas, que para além de promoverem atividade física, têm por base a utilização de respiração controlada e meditação, acabando por ter efeitos de relaxamento e bem-estar emocional, a par dos evidentes benefícios físicos.

Tai chi e Yoga quando praticadas com regularidade, têm apresentado resultados muito positivos ao nível da qualidade de vida em geral, mas em particular de pessoas com quadros clínicos variados, desde as doenças oncológicas, às osteoarticulares, cardíacas, desequilíbrio (nomeadamente no envelhecimento), entre outras. Assim, têm sido apontadas como alcançando um impacto positivo no alívio da dor associada a várias situações clínicas. No que se refere ao Tai chi mais especificamente ao nível da sintomatologia da artrite e hipertensão arterial e quanto ao Yoga são vários estudos que apontam a sua influência na estabilização da frequência cardíaca, pressão arterial, alívio da dor física no geral e nalguns quadros de depressão e ansiedade.

O interessante é que ambas as práticas se baseiam em abordagens que estabelecem de forma harmoniosa uma fusão do corpo e da mente, permitindo um apaziguar geral da pessoa, não só em termos físicos mas também emocionais.

Muitas pessoas questionam qual a prática mais indicada para si, principalmente nas questões de quadros depressivos/ansiedade. Na realidade é como tudo na vida... depende de cada um/a, porque não existem receitas generalistas quando a questão é individual. O melhor mesmo é experimentar as duas e perceber com a qual sente fluir maior paz, liberdade pessoal e energia física ou alívio de tensão/dor.

A questão fica... Tai chi e Yoga: desporto ou ferramenta terapêutica? Porque não ambas...
  
Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em  Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

As "dispensas" e o absentismo na Educação Física


(crónica de Sofia Loureiro)


Com o início do ano escolar e o trabalho de organização e motivação, que me é hábito fazer com crianças e jovens que tenho em acompanhamento terapêutico, confrontei-me com as reflexões que decidi aqui partilhar. Ao fim de tantos anos de trabalho e tantas mudanças no sistema educativo e da sociedade em geral, algo se mantém… a quantidade de crianças e jovens que referem pouco investimento nas aulas de Educação Física e aqueles que têm vários tipos de motivos “justificados” para faltar às aulas, falando nisso mesmo antes do ano letivo começar. Ressalvo aqui que não me refiro a situações em que comprovadamente a criança ou o jovem têm algum problema de saúde, que os impossibilita temporária ou permanentemente da prática desportiva ou de esforço físico.

Falo de jovens que não encontram prazer e desvalorizam os conhecimentos ou competências adquiridos nesta disciplina, usando depois razões mais ou menos válidas para poderem de forma justificada faltar às aulas. Se bem que a maioria das crianças e jovens gostem da disciplina, pelo facto de a associarem a uma maior liberdade e distração, certo é que existem alguns outros/as que são pouco participativos e procuram a dispensa das aulas.

As reflexões e leituras que tenho feito sobre este assunto, dividem-se em dois grandes aspetos. Por um lado, sistematizar o que pode estar associado a este desinteresse, sem ter atitudes mais discriminatórias e apontar logo o dedo e rotular estes/as alunas como “preguiçosos” e “parados”. Por outro, encontrar estratégias para motivar estas crianças/jovens a frequentar as aulas, atendendo à importância que esta disciplina tem, não só para o desenvolvimento psicomotor e cognitivo, mas também pelo facto de poder ser a melhor oportunidade do sistema de educação formal para promover a interiorização da relevância da prática de exercício físico para a saúde e qualidade de vida.

São muitos os fatores subjacentes ao desinvestimento e “absentismo” às aulas de Educação Física e muitos os especialistas na matéria que já estudaram o tema. Existem as características individuais e as mudanças biopsicossociais que acontecem ao longo do desenvolvimento humano, nomeadamente na passagem da infância para a adolescência e que contribuem para uma diminuição da atividade física. Mas salientaria aqui aspetos como o facto de alunos/as considerarem as aulas pouco interessantes, repetitivas ao longo dos anos letivos, terem a noção do “insucesso” mais exposto aos olhos do grupo e de serem valorizados pelos professores os alunos “naturalmente” dotados para a prática desportiva. O interessante é perceber que alguns destes jovens que não querem fazer Educação Física por vezes praticam uma qualquer modalidade desportiva fora da escola…

No segundo e último momento destas reflexões e procurando um ou vários caminhos para uma mudança na adesão destas crianças e jovens para a frequência assídua das aulas de Educação Física, começaria por destacar que o importante seria começar por conseguir estimular o espírito de grupo e das boas relações entre alunos. Por outro lado, adotar estratégias pedagógicas que proporcionem momentos de prazer à maioria dos/as alunos/as, mas também de sucessos face aos níveis de competências individuais de cada um/a tendo em atenção os níveis de dificuldade associados. Não menos relevante e prática chave para a motivação (ainda que cumprindo os currículos de cada ciclo escolar) seria a procura pelos/os professores em variar as atividades, as temáticas a abordar e não valorizar demasiado a competitividade mas antes o espírito de interajuda, respeito e alegria. Esta é a disciplina onde mais facilmente se podem proporcionar momentos para abordar de forma descontraída, assuntos como a preocupação com o corpo/padrões de beleza e aparência, a sexualidade, hábitos alimentares e que sabemos ocupar parte dos pensamentos das crianças e jovens.

Conhecendo todos os constrangimentos que rodeiam o ato de ser professor/a e as cada vez mais exigentes burocracias do contexto educativo formal, não deixo de acreditar que se pode fazer a diferença com pequenos movimentos individuais. Acredito que se podem motivar os/as alunos/as aparentemente com maior grau de passividade nas aulas de Educação Física, procurando ir ao seu encontro, das suas dificuldades e interesses, das suas capacidades e dos seus receios, tornando-os/as progressivamente mais participativos/as e mais capazes de se auto determinarem de forma saudável no presente e no futuro.

Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em  Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Desporto em equipa - aspetos psicológicos


(crónica de Sofia Loureiro)

Desde que a psicologia do desporto assumiu um papel mais relevante no desempenho e rendimento de atletas, que uma das áreas de interesse se dedica à intervenção junto de equipas. É pois face a esta temática que se procurará refletir nesta crónica. O desporto implica em cada pessoa grande influência ao nível dos limites humanos. Limites estes que não se referem apenas aos aspetos físicos mas também psicológicos. Assim, quando nos debruçamos sobre estas questões numa pessoa que pratica uma modalidade em equipa, as variáveis multiplicam-se e correspondem a muito mais do que à soma das partes.

Quero com isto dizer que para além de se considerar cada atleta per si, nas suas dimensões pessoais (motivação, níveis de ansiedade, medo de ser substituído na equipa ou de sofrer lesões), há que estar atento a questões relacionadas com dinâmicas de grupo, coesão da equipa, liderança, gestão de stress e conflitos. Os conflitos neste e noutros casos não são um mal a evitar, mas sim uma questão que se deve aprender a superar como forma de reforçar os grupos.

Estas questões da coesão do grupo (a par da individualidade e especificidade de cada atleta) são essenciais para quem pratica, treina e acompanha estas equipas. Realço assim que devem ser potenciadas e salvaguardadas propriedades grupais como: a comunicação entre todos os elementos, as questões de consenso, a perceção que cada praticante tem do grupo, a perceção que cada um/a tem do seu papel na equipa, a gestão de conflitos, entre outras.

Ter conhecimentos nestas áreas e competências para estimular e acompanhar uma equipa, promovendo a coesão dos praticantes, está já estudado por muitos especialistas na matéria em apreço e sabe-se que se reflete de forma direta no rendimento e nos resultados das equipas. Quero com isto dizer que em várias investigações de campo, se comprovou a corelação positiva entre a coesão do grupo (a união entre os elementos, a boa comunicação e perceção do objetivo comum) e a estabilidade da equipa e dos resultados atingidos. Mesmo após resultados menos favoráveis para a equipa, aquelas onde os níveis de coesão grupal são elevados, conseguem manter a motivação e o rendimento de trabalho para a prossecução de novos objetivos.

Considera-se assim que a par de um bom treino físico e tático é essencial para um bom rendimento desportivo de uma equipa e dos atletas que a compõem, estar atento e trabalhar diariamente todos os aspetos anteriormente descritas e que promovem a coesão e a estabilidade do grupo.

Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em  Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Alta competição... a escolha de uma vida


(crónica de Sofia Loureiro)

Esta semana tive o prazer de conviver durantes umas horas com uma jovem atleta com estatuto de alta competição. Se já antes tinha admiração por todos e todas quantos lutam diariamente por cumprir sonhos e metas em atividades desportivas, mais maravilhada fiquei com as características que pude observar nesta rapariga “tão grande” na sua determinação, força de viver e espírito de sacrifício.

Mesmo para quem trabalha diariamente quer em escolas, universidades, clubes e associações desportivas, seria importante passarem um dia com jovens desportistas com estatuto de alta competição.

Quantas vezes têm a oportunidade de ouvir o entusiasmo de jovens, descreverem um dia da sua vida (que se repete durante semanas, meses e anos) em que só para começar o despertador toca às 5h00 da manhã? Sim, porque os treinos começam às 6h00… Depois de duas a três horas de treino intenso, seguem-se as aulas (neste caso já na universidade). E mais treinos e preparação para competições internacionais e meetings e lesões e tratamentos e cirurgias e desilusões e esperanças renovadas!

A prática desportiva de alto rendimento implica uma escolha difícil principalmente quando falamos de jovens. Estes jovens pelo seu amor e paixão pela modalidade desportiva a que se dedicam, abdicam muitas vezes de aspetos que milhares de outros seus pares assumem como dados adquiridos.

Não há férias escolares como a maioria neste momento em Portugal está a usufruir. Continuam os treinos e as regras e horários. Não se pode comer tudo o que apetece, nem deitar a altas horas da madrugada porque se esteve a jogar computador ou numa qualquer festa por aí. E mesmo quando não se está com o treinador/a… os treinos são feitos noutro sítio e noutro local e tudo registado. Não se pode apanhar banhos de sol indiscriminadamente porque implica no rendimento. E tem que se informar se não pernoita no sítio habitual porque pode ser chamado para controlo de doping.

O que me maravilhou foi perceber que,  a par de tantas restrições e horários rígidos, vive uma intensa vontade de viver e de conquistar a vida. Que cada sacrifício faz parte de um degrau que se firma como alavanca para a formação pessoal e para um desenvolvimento humano mais completo e flexível.

A todas pessoas que por este país fora diariamente decidem escolher este caminho de exigência com tanta determinação e alegria, o meu obrigada. 

Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em  Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva

domingo, 5 de julho de 2015

Equitação Terapêutica


(crónica de Sofia Loureiro)

O cavalo desde há muitos séculos se sabe ter efeitos incríveis no corpo e mente humanas. Assim, o uso do cavalo com fins terapêuticos, na europa ter-se-á iniciado no século dezoito, mas os primeiros programas de forma mais estruturada, remontam aos anos 50/60 do século XX.

A Equitação Terapêutica é um termo amplo, que se refere a diferentes áreas que utilizam o cavalo com objetivos terapêuticos variados e com equipas multidisciplinares (medicina, psicologia, fisioterapia, terapia ocupacional, ciências da educação e do desporto).

De várias destas áreas encontra-se a hipoterapia, que se destina essencialmente à utilização do cavalo por um fisioterapeuta inserido numa equipa multidisciplinar para o tratamento e reabilitação de pessoas portadoras de deficiência ou com alguma necessidade educativa especial.                              

Os benefícios da Equitação Terapêutica já estudados e comprovados, são variadíssimos dos quais se podem destacar: o contacto com um ser vivo, neste caso o cavalo, que promove desde logo o desenvolvimento de uma ligação afetiva, o desenvolvimento de competências imprescindíveis para a socialização através da relação com o cavalo e também com a equipa terapêutica. Aumenta ainda a autoconfiança, o autocontrolo e por isso a autoestima. O ato de cavalgar estimula ainda a atenção/concentração, a disciplina e a responsabilidade, aspetos essenciais e para cuidar e lidar com um cavalo.

A Equitação Terapêutica tem demonstrado resultados muito positivos com pessoas com limitações intelectuais, psicológicas e físicas, entre os quais portadores de autismo, síndrome de Down, paralisia cerebral e hiperatividade.

É maravilhoso presenciar e observar o comportamento de crianças e adultos portadores de alguma deficiência ou necessidade educativa especial, quando se encontram perante a possibilidade de vivenciar a experiência de qualquer das áreas da Equitação Terapêutica, uma vez que muitas das dificuldades e limitações com as quais lidam diariamente ali, naquelas sessões se desvanecem, dando-lhes provavelmente uma imensa sensação de liberdade e controlo.

Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em  Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto 
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva