sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Gestão de Conflitos


(crónica de Nuno Gomes)

Em qualquer estrutura ou organização existe uma edificação hierárquica à qual todos devem ter ciente o seu lugar ou função.

Os Diretores dirigem, os treinadores treinam, os jogadores jogam, numa estrutura de uma equipa desportiva, futebol ou outra, isto deveria ser linearmente dessa forma, mas não é…

O conflito pode ser conotado com a divergência de opiniões, ou atos, que poderão colocar em causa o objetivo final.

Considero, enquanto treinador ou professor, que em função da origem ou da forma de resolução, o conflito poderá ser benéfico ou estrategicamente direcionado para obter rendimento individual ou coletivo, no pavilhão, na sala de aula ou na rua…

Aclarando o meu raciocínio:

Futebolisticamente escrevendo, na relação entre a direção e o treinador nem sempre existe sintonia, se hierarquicamente a direção tem mais “poder” que o treinador, os resultados obtidos podem servir de balança entre a criação ou inexistência de conflitos.

Recentemente, no nosso campeonato, aconteceu um episódio que, fazendo a minha leitura, foi usada uma estratégia de potenciar um conflito tendo como finalidade uma rutura.


Na Liga NOS decorreu um jogo que terminou com uma derrota por duas bolas e o treinador da equipa derrotada, não atribuindo de forma direta a causa da derrota, criticou a equipa de arbitragem de forma veemente.

Posteriomente o Presidente da SAD desse mesmo clube, publicamente elogiou de forma enérgica o trabalho da equipa de arbitragem, colocando em causa as opções do próprio treinador antes e durante a época, justificando dessa forma os resultados menos positivos da equipa.

Atento que a palavra do Presidente da SAD alusiva ao treinador, alicerçada em impulsos antagónicos, teria como principal foco a criação de instabilidade para levar a uma ruptura. A criação de um conflito tendo em vista um vencedor e um vencido.

Tal aconteceu. O treinador acabou por sair do clube em colisão com a direção… Caso claro de um exemplo de gestão onde as competências usadas foram canalizadas para um ganhar e outro perder, dentro da mesma estrutura. Se a estrutura sairá a ganhar? Os resultados serão o demonstrativo.
 

A relação treinador/jogador é, em alguns casos, propensa a conflitos. Motivos díspares: Confiança, ou falta dela, oportunidades, personalidade, frontalidade…

Sendo o treinador um gestor, terá de usar das próprias competências para que a resolução de qualquer conflito não seja centrada no binómio “eu ganho e tu perdes”, sob forma de que o resultado a longo prazo seja refletido negativamente no grupo de trabalho. Tal situação poderá ser transportada para o ensino escolar e para os alunos.

“Jesus confronta-me, mesmo quando eu marco. Porque quer que eu seja melhor.”

Esta frase, da autoria de Bas Dost, avançado do Sporting a um jornal desportivo, refletem a importância de um antagonismo positivo. Conhecedor das características emocionais do atleta, o treinador usa o confronto como estratégia motivadora para alcançar melhores performances do atleta e, consequentemente, do coletivo
 

Na minha experiência enquanto treinador, convivi e convivo, com diversas situações potenciadoras de conflito, relacionados com o treino, Pais, pressão de ganhar, diretores, prémios, tempo de jogo, escassez de meios, entre outros…

Sendo que as linhas orientadoras de qualquer treinador também estão vincadas na sua personalidade, enumero alguns itens que considero importantes na gestão e resolução de conflitos:
 

1- A elaboração de regras justas e adequadas a todos e não somente a alguns, seja primordial;

2- Honestidade, equidade, frontalidade e imparcialidade deverão ser pontos fundamentais do relacionamento entre o treinador e jogador;

3- Cada jogador, tal como cada ser humano, tem uma personalidade diferente e perante a mesma situação poderá reagir de diferentes formas;

4- A fuga para a frente, ou inação, nunca poderá ser a solução por parte do treinador para a resolução de conflitos;

5- Os objetivos devem ser comuns, globais e direcionados para um todo e não para a perspetiva egocêntrica;

6- Saber tirar partido de um foco de conflito e torná-lo em algo positivo para o grupo;

7- O tom agressivo de voz nem sempre se coaduna com uma liderança eficaz;

8- Colaborar, ouvir, reformular, participar, estar envolvido, antecipar cenários, lidar com pessoas complicadas, serenidade e sensatez.

Sendo um tema para inúmeras interpretações e sentidos, não deixa de ser, no caso de uma boa gestão de um conflito, a diferença entre uma derrota ou uma vitória, se a finalidade for o aspeto puramente competitivo.

"Ganhar e perder são objetivos para as competições e não conflitos. Aprender, crescer e cooperar são objetivos para resolver conflitos.” Thomas Crum

Nuno Gomes 
Licenciado em Ciências do Desporto - Motricidade Humana; pelo ISEIT-Piaget
Mestre em Ensino de Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário; ISEIT-Piaget
Ex-Treinador de Futebol na Academia Winning League Luis Figo - China
Pós Graduação - Direcção Técnica em Futebol - Universidade Lusófona
Selecionador Distrital da Associação de Futebol de Santarém - Sub14 Masculinos

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