(crónica de Susana Estriga)
Hoje, em todo o lado, sou confrontada com alunos, jogadores, atletas com elevados deficits de coordenação, resistência e baixa capacidade de aprender as habilidades básicas da prática desportiva.
E este é um problema que se tem vindo a agravar, para além das questões da obesidade infantil. Não posso deixar de me interrogar acerca das razões deste fenómeno!
Puxando o filme da minha vida para trás, até à minha infância, penso que a explicação é óbvia. Este é um fenómeno complexo e que decorre de uma mudança de valores, hábitos sociais, culturais e de estilo de vida. Não foi só a vida das crianças que mudou, foi também a vida dos pais. Há 4 décadas atrás a grande maioria das crianças brincava na rua sem limite e ia a pé para a escola. Hoje, ninguém no seu perfeito juízo deixa uma criança pequena brincar na rua sem a supervisão de um adulto. Além de que vivemos na era do stress profissional, da avaliação de desempenho e da destruturação familiar, onde impera a família monoparental. A par de tudo isto veio a severa crise financeira, que obriga a trabalhar em condições muito precárias ou até a emigrar/imigrar, afastando ainda mais as famílias.
Muitos são os avós que hoje vivem amargurados pela distância e saudade de filhos e netos... Esta relação foi no passado um importante pilar do crescimento dos mais pequenos. Hoje a infância é passada em creches e jardins de infância, que nas cidades tendem a ser lugares com pouca luz e com pouco espaço para explorar e brincar livremente, muito longe das quintas, ruas, dos animais e até do rio que preencheram e enriqueceram os meus primeiros anos de vida. Ficam horas intermináveis nestes espaços e depois é a correria para chegar a casa, fazer o jantar e ir para a cama. Não há quase tempo para conversar, ler uma história ou sequer embalar o sono. Aposta-se na tecnologia para entreter a “criancinha” e pôr as tarefas domésticas em dia.
Hoje qualquer criança, por mais pequena que seja, está bem familiarizada com uma grande panóplia de brinquedos electrónicos que lhes tira o espaço para brincar e aprender a brincar. Muitos dos jogos são extremamente apelativos em termos de imagens e som, mas será que são intelectualmente ou fisicamente estimulantes? Na verdade isso pouco deve interessar a alguns pais, o que importa mesmo é que a criancinha esteja sossegada, não incomode, não desarrume e não parta nada. Mas como será esta criança que já não brinca às escondidas, à apanhada ou simplesmente sobe às árvores e atira pedras ao rio? Que tem um electrodoméstico como o melhor amigo, que se subjuga a todas as suas vontades.
Na minha prática diária a resposta é simples. São crianças com pouca capacidade de se relacionarem e aceitarem as regras sociais, como seja a disciplina escolar ou outra. São crianças com pouca perseverança e que à mínima dificuldade protestam ou desistem, como quem muda de jogo na consola. São crianças que não sabem/não aprenderam a usar o seu próprio corpo. E depois o eterno problema da alimentação. Os pais cansados e desesperados, não resistem à tentação de dar a comida que mais agrada aos filhos para evitar mais momentos de stress e de conflito. Hoje é com relativa frequência que vemos pais (da minha geração) relativamente elegantes e cujos filhos (adolescente) são invariavelmente obesos ou pré-obesos. Mas será que este é um problema civilizacional insolúvel?
Não creio. Para isso basta visitar os países nórdicos. Nestes países pais e filhos terminam os seus afazeres bem cedo, tendo tempo para se envolverem em atividades desportivas diárias antes de regressarem a casa de mais um dia de trabalho ou de aulas. Mas somos uns sortudos, diriam alguns, porque não vivemos em países subdesenvolvidos como em África. Temos comida e água potável, é verdade, mas não somos mais felizes do que muitos destes povos e a nossa qualidade de vida tem vindo a degradar-se de forma significativa. Esta realidade é confirmada todos os dias nas estatísticas que ninguém quer ver, como seja a taxa de suicídio. Mas como temos uma fé inabalável na Europa, talvez ela nos salve deste nosso destino que teimamos em aceitar resignados....
Susana Estriga.
Licenciada em Desporto e Educação Física na Universidade do Porto.
Especialização em Desporto Rendimento - Atletismo.
Professora de Educação Física no Agrupamento de Escolas nº 2 de Abrantes.
Treinadora de Atletismo do Sporting Clube de Abrantes.
Especialização em Desporto Rendimento - Atletismo.
Professora de Educação Física no Agrupamento de Escolas nº 2 de Abrantes.
Treinadora de Atletismo do Sporting Clube de Abrantes.

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