(crónica de Célia Dias Lopes)
Para a maioria das pessoas, os
intestinos só contam quando se trata de ir à casa de banho. Na verdade
subestimamos um pouco os nossos intestinos.
Muitas das pessoas pensam que as
fezes são acima de tudo constituídas por aquilo que comemos, mas isso não é
verdade. Um terço da parte sólida das fezes são bactérias, outro terço são
fibras vegetais não digeridas. Quanto mais vegetais e fruta comermos, maior o
volume das fezes.
Outro terço é uma manta de retalhos
constituída por substâncias que o corpo deseja expelir, como por exemplo os
restos de medicamentos, corantes e colesterol.
A parte que resta é água. É
através desse adequado teor de água que as fezes se apresentam suficientemente
moles para expelir em segurança os nossos resíduos.
Uma elevada percentagem da
população portuguesa sofre, sofreu ou virá a sofrer de obstipação alguma vez na
vida. Nessa altura reconhecerá os sintomas clássicos deste problema, também
conhecido como prisão de ventre.
Para fazer parte desse grupo, é preciso
cumprir pelo menos dois dos seguintes requisitos: ir à casa de banho menos de
três vezes por semana; um quarto das idas à casa de banho ser especialmente
difícil, resultando muitas vezes em apenas pequenas porções, ter de investir
força para evacuar e só consegui-lo com pequenos truques e ajudas e a pessoa
não sentir que tenha evacuado na sua plenitude ao sair da casa de banho.
A idade também conta
A obstipação prevalece nas faixas
etárias mais avançadas. Nelas existe uma diminuição natural do poder de
expulsão das fezes, pelo facto de os músculos envolvidos estarem debilitados.
Além disso, é frequente que os idosos mantenham hábitos alimentares
deficientes, quer porque a falta de dentes já não lhes permite mastigar determinados
alimentos, quer por falta de interesse na própria comida. Do mesmo modo,
ingerem poucos líquidos e, muito provavelmente porque vivem sós, acabam por
fazer refeições irregulares.
O elevado consumo de
medicamentos, característico nestas idades, pode contribuir também para a
prisão de ventre, o que é agravado pelo facto de muitas vezes os idosos estarem
acamados durante períodos longos.
É verdade que, por vezes, as
queixas de prisão de ventre feitas pelos idosos são fictícias. Este é um
problema que os preocupa e que, mesmo que não seja real, os leva a recorrer
demasiado a laxantes. Com isso, o intestino acaba por ser tornar preguiçoso e
só funciona com "ajuda".
Hora combinada com o intestino
Se vai sempre à casa de banho de
manhã ou outra altura do dia, e se reprimir essa necessidade está a quebrar um
acordo. O intestino apenas deseja levar a cabo o seu contrato. E se colocarmos
as fezes em lista de espera, estaremos desse modo a treinar os nervos e os
músculos em direção oposta.
Além disso ao colocar as fezes em
lista de espera, haverá mais tempo para retirar água das fezes, o que torna
mais difícil a próxima ida à casa de banho. Reprimir as necessidades pode
significar obstipação.
As causas da obstipação são
várias e podem incluir uma dieta pobre em fibras, ingestão insuficiente de
líquidos, falta de exercício físico, entre muitas outras. Por isso, alterar os
seus hábitos pode ser a melhor forma de evitar ficar obstipado.
Há alimentos que fazem o nosso
intestino trabalhar. Estou a falar das fibras. Uma vez que não são digeridas no
intestino delgado, dão sinal ao intestino que gostariam de sair para o
exterior. Não adianta dar mais fibra se não fornecermos líquido ao intestino
para tornar tudo mais macio. Sem água não passam de massa sólida, com água incham.
As fibras que não se dissolvem em água desencadeiam movimentos mais agitados.
As fibras solúveis em água tornam as fezes mais macias.
Os probióticos (bifidobactérias
vivas) e os prebióticos (alimento para as bifidobactérias que estimulam o seu
crescimento) são boas bactérias vivas que, juntamente com os seus alimentos
preferidos, podem insuflar uma nova vida a um intestino cansado.
Como prevenir ou tratar a obstipação
1. Exercício físico
Recomenda-se praticar 30 minutos
de exercício físico diariamente para aumentar a mobilidade do intestino.
2. Beber Água
Beber 1,5/2 litros de água por
dia para obter uma hidratação suficiente das fezes e ser mais fácil expeli-las.
3. Ingerir fibras
Das vinte cinco a trinta gramas
de fibras que devemos ingerir diariamente, a maioria da população ingere cerca
de metade.
Uma dieta rica em fibras ajuda a
regularizar os intestinos. Exemplos de alimentos ricos em fibras são cereais
integrais, nozes, frutas e legumes.
Uma pessoa que nutre o seu
intestino com poucas fibras, como massas, pão branco, etc… não deve mudar de
repente para grandes porções de pratos ricos em fibras, já que isso irá
violentar a comunidade de bactérias. O resultado poderá ser o excesso de
flatulência. O procedimento certo é aumentar gradualmente as fibras e nunca em
quantidades exageradas.
4. Ir à casa de banho com
regularidade
Manter hábitos regulares para ir
à casa de banho ajuda a evitar a obstipação. Procure manter uma hora certa
todos os dias para ir à casa de banho, mesmo que não tenha vontade de evacuar.
Demore o tempo que for preciso e criará uma rotina intestinal.
Célia Dias Lopes é dietista.
Licenciada em Dietética desde 1997 e pós-graduada em Saúde, Aconselhamento e Tendências de Consumo, ambos pela Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa.
Sócio-gerente da empresa NutriCuida Consultoria e Nutrição, Lda.
É formadora e consultora na área da nutrição. Autora de inúmeras comunicações em congressos.
Autora do Livro " a e i o u da dieta saudável do doente em hemodiálise".
Membro da Associação Portuguesa de Dietistas e da Ordem dos Nutricionistas.
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