(crónica de Sofia Loureiro)
Viver no mundo do ideal da perfeição é um dos principais
traços de personalidade que podem estar na origem do não envolvimento em
atividades desportivas ou nos abandonos precoces.
O perfecionismo é um assunto ou conceito desde sempre
discutido nas áreas das ciências sociais, mas também por cada um de nós no seu dia-a-dia.
Temos uma existência subtil ou formalmente marcada pelo caminho que visa a
perfeição, o que tem aspectos interessantes se nos centralizarmos num esforço
em nos ativarmos para um bem maior, para uma realização pessoal e social. Assentamos
muitas das nossas ações no facto de estarmos mais ou menos perto da suposta
perfeição. Recompensamos ou punimos a nós próprios, os filhos, os alunos, os
praticantes de desporto, os profissionais, quem quer que seja de forma direta
ou indireta por se terem aproximado ou afastado desse percurso. Acima de tudo
procura-se a aprovação desse caminho para a perfeição. A aprovação da família
em primeira instância, de amigos, de professores/treinadores e da sociedade que
nos rodeia.
A sociedade que somos apela a um enorme individualismo que é
acentuado pelo consumismo. Em que os meus direitos, os meus desejos, as minhas
necessidades precisam ser satisfeitas aqui e agora. A sociedade do “sem tempo”.
Sem tempo para mim e muito menos para os outros. Tudo isto e muito mais, tem
vindo a potenciar uma série de competitividades muitas vezes cruéis, porque
visam uma perfeição “minha e só minha”, para obter as tais recompensas da
sociedade consumista e não as recompensas por uma realização pessoal, por um
bem maior e comum.
Este tipo de vivências contribui para a estruturação de
traços de personalidade que se caracterizam essencialmente por auto exigências
e por muitos medos. A exigência de não poder falhar e o dever de fazer tudo
certo, de estabelecer objetivos muitas vezes irrealistas. O medo extremo de não
conseguir aquele resultado, o medo que os outros reparem nessas falhas e o viver
toda uma vida a acreditar que é tudo ou nada.
Estas características levam a que muitas pessoas não iniciem
por vezes uma qualquer atividade desportiva porque receiam não conseguir fazer “logo
tudo bem” e a isto chama-se evitamento. O evitamento “protege” de forma negativa
estas pessoas do medo do insucesso e da hipótese que consideram terrível de
poder não ser próximos do perfeito.
O mesmo se passa com praticantes de qualquer modalidade que
perante a pressão de resultados e com metas por vezes altamente desadequadas,
quebram e/ou manifestam um desempenho inferior ao esperado, chegando a
desistir, apenas para não ter que experienciar maus resultados.
Fica a mensagem… a perfeição não é uma realidade e torna-se
um pesadelo se insistirmos neste modelo competitivo, desregrado, desligado da
relação com os outros. Nem tudo é possível! Nem tudo se consegue mesmo com
muito trabalho! Há limites! E esses limites fazem de nós a espécie que sente,
que se une para conseguir atingir objetivos e ultrapassar obstáculos! Assim
sobrevivemos todos estes séculos… quantos mais queremos sobreviver?
Sofia Loureiro
Psicóloga Clínica
Licenciada em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto
Pós graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva
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