(crónica de Nuno Gil)
Como
podemos caraterizar a relação entre o clube e os seus atletas? O ideal seria
uma relação de compromisso bilateral, onde as duas partes têm direitos e
deveres.
Do
clube, o atleta espera que este lhe proporcione um enquadramento técnico
especializados, ofereça condições logísticas adequadas ao desenvolvimento da
sua prática desportiva quer em treino quer em competição, lhe dê a conhecer o
programa de treinos e os objetivos a que se propõem e que o ajude a fomentar o
desenvolvimento das suas capacidades desportivas gerais e específicas da
modalidade.
Do
atleta, o clube espera que participe e se empenhe em todas as atividades de
treino e competição, tenha uma conduta cívica e desportiva exemplar sempre que
o está a representar e que cumpra com os seu deveres de atleta.
Mas
atualmente, numa sociedade cada vez mais egocêntrica, parece-me que a relação
clube/atleta, tende a ser unilateral, isto é, os atletas só fazem valer a parte
dos direitos, esquecendo-se dos deveres.
Infelizmente
nos escalões de formação é comum verificar que na altura dos testes escolares
os atletas tendem a comparecer menos nos treinos e até a colocar alguns
entraves na sua participação nas competições, situação esta que do meu ponto de
vista é simplesmente lamentável.
Quando
no inicio duma época desportiva um jovem se inscreve num clube, ele e o seu
encarregado de educação, tem conhecimento do plano de treinos e também que tipo
de competição tem pela frente. Logo, tendo conhecimento destes factores, só se
inscreve porque quer e assume implicitamente que irá participar em todas as
atividades da equipa/grupo.
Assim, a
sua não participação quer nos treinos, quer nas competições é uma quebra de
compromisso para com o clube e para com os seus pares de equipa/grupo e uma
lacuna grave na sua formação pessoal, nomeadamente no que se refere ao fomento
de valores sociais como o compromisso, lealdade e cooperação.
Não
estou a dizer que as atividades do clube se devem sobrepor aos deveres
académicos e até pessoais, o que estou a querer dizer é que antes de assumirmos
compromissos, devemos analisar todas as consequências dos mesmos e quando os
assumimos devemos cumpri-los até ao fim. Mais lamentável é esta situação,
quando são os próprios pais a promover esta quebra de compromisso,
incentivando-os, algumas vezes contra a sua vontade, a faltarem ao compromisso,
quando o que deviam fazer era fomentar o cumprimento dos mesmos, principalmente
quando a sua tem origem na má gestão de tempo que os seus educandos/filhos
fazem.
Sem
adjetivos, fico, quando vejo clubes/equipas a participarem nas competições sem
um número mínimo de jogadores ou até mesmo a abandonarem as suas competições,
prejudicando-se assim gravemente e aos os restantes clubes em competição, que
se vêem assim privados de competir, prejudicando atletas cumpridores que não
quebraram nem querem quebrar o compromisso que assumiram para com a instituição
e para com os seus colegas de clubes, porque alguns atletas e pais não têm a
dignidade de assumir e cumprir os seus compromissos.
Termino
com uma questão: será que está preocupação excessiva com o eu em detrimento do
nós, será o caminho ideal para a nossa sociedade?
Nuno Gil
Licenciado em ciências do desporto, pela FCDEF-UC
Mestre em treino do jovem atleta, pela FMH-UTL
Doutorando em ciências do desporto, na FCDEF-UC
Professor de educação física, na escola secundária Dr. Manuel Fernandes
Ex-treinador desportivo
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