(crónica de Nuno Gomes)
Ser
Pai é igual em Portugal ou na China, Ser Treinador é igual em Portugal ou na
China, Ser Atleta é igual em Portugal ou na China…
Tenho
o privilégio de, neste momento, estar a trabalhar numa cultura completamente
díspar da que estava habituado.
Uma
das minhas grandes interrogações quando cheguei à China estava relacionada com
a relação entre mim, os pais e os jovens atletas. Entenda-se por relação tudo o
que envolve a comunicação, interação, envolvimento e empatia…
Relativamente
aos pais, qual seria o comportamento dos pais durante os treinos ou a competição,
se seriam críticos, desinteressados, pressionantes, treinadores de bancada,
agressivos, superprotetores, como iria ser elaborada a estratégia de
comunicação para eu ter noção dos feedbacks e ter a certeza que a mensagem
enviada era clara e correta…
Como refere António Rui Gomes (2011), os
treinadores devem estar preparados para gerir a intervenção dos pais junto dos
jovens atletas.
No
que diz respeito aos jovens atletas, saber quais as expetativas, os medos,
anseios, a motivação para a prática desportiva, comportamentos, e fundamentalmente:
o aspeto cultural!
Quanto
a mim, enquanto treinador, sabia que a minha imagem e trabalho iriam ser refletidas
na aprendizagem diária dos atletas, na sua motivação, empenho e,
consequentemente, evolução da prática desportiva, neste caso a aprendizagem do
futebol.
Sabendo
que a língua poderia ser um grande obstáculo, teria de efetuar um trabalho de
base com o meu treinador adjunto, além de todas as regras pré-estabelecidas
para o normal desenvolvimento do processo de treino, explicar qual a minha
forma de trabalhar, objetivos, dinâmicas e ressalvar que o mais importante no
processo de treino de jovens é o bem-estar, a alegria e motivação da criança,
porque estas nuances potenciam a
aprendizagem.
Após
os primeiros treinos, como em qualquer processo de aprendizagem, fui-me
inteirando acerca de comportamentos, e tomadas de decisão por parte dos pais e
dos próprios atletas. Apesar de estabelecermos, eu e o Ricardo, com diferentes
grupos, algumas regras elementares para o bom e salutar funcionamento da
academia, há aspetos culturais que “condicionam” o normal desenvolvimento do
treino.
Alguns
episódios engraçados, e caricatos, aconteceram nos primeiros treinos.
Recordo-me de na primeira semana um atleta ter começado a transpirar, devido ao
treino, e uma mãe pediu-me para parar o exercício porque queria limpar o suor
do filho…ou numa pausa para beber água, durante o treino, ver um pai a dar um
bolo de chocolate, bolachas e um sumo de laranja para o filho comer e continuar
a treinar… Isto demonstra um pouco uma das características mais comuns nos pais
Chineses: “Superprotetores”.
O
facto de após explicarmos que os comportamentos, anteriormente descritos, não deveriam
ser cometidos e o porquê, fez com que os pais não repetissem tal procedimento, o
que demonstra outra característica inerente: “cooperantes e respeitadores”.
Também
há os pais “treinadores de bancada”/pressionantes, que passam o treino a dar
indicações aos filhos, quase dentro do campo, e quando eles cometem um erro
criticam o filho de forma agressiva. Nestas situações, tentamos no final do
treino falar com estes pais e explicar-lhes, entre outros fatores, que esse
comportamento acentua a pressão que o filho poderá sentir durante o treino ao
transformarem um momento que se quer de aprendizagem, desenvolvimento
entroncado na satisfação e prazer, num momento de pressão, angústia e que pode
levar à desistência.
Uma
situação que nunca me tinha acontecido está relacionada com o facto de nas duas
primeiras semanas ter tido alguma dificuldade para explicar a um pai (neste
caso uma mãe) que o treino era só para os jovens atletas, pois a mãe fazia
questão de querer integrar os exercícios dizendo-me que se pudesse treinar em
casa também conseguiria treinar o filho… Demorou duas semanas, mas nada que
conversas explicações e exemplos práticos não resolvessem.
Neste
momento, e decorridos 7 meses desta magnífica experiência constato que a
principal característica dos pais está relacionada com a superprotecção e
respeito mútuo. Na minha opinião a primeira está relacionada com o facto de o
treino e o futebol ainda serem um pouco uma ciência/atividade desconhecida para
a maioria, no que diz respeito a regras, hábitos e rotinas, a segunda
característica é cultural, são por norma respeitadores e essa característica aumenta
exponencialmente quando sabem que trabalhamos em prol do desenvolvimento dos
filhos.
Quanto
aos jovens atletas, a alegria com que treinam, a vontade com que querem aprender,
espelham a nossa relação e demonstram a empatia existente diariamente.
Mas
é para isso que aqui estamos….
Todos
os dias uma aprendizagem, uma aprendizagem diária.
Nuno Gomes
Licenciado em Ciências do Desporto - Motricidade Humana; pelo ISEIT-Piaget
Mestrando em Ensino de Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário; ISEIT-Piaget
Treinador de Futebol na Academia Winning League Luis Figo - China






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