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domingo, 10 de abril de 2016

Trilogia Pai Treinador Atleta... na China


(crónica de Nuno Gomes)

Ser Pai é igual em Portugal ou na China, Ser Treinador é igual em Portugal ou na China, Ser Atleta é igual em Portugal ou na China…

Tenho o privilégio de, neste momento, estar a trabalhar numa cultura completamente díspar da que estava habituado.

Uma das minhas grandes interrogações quando cheguei à China estava relacionada com a relação entre mim, os pais e os jovens atletas. Entenda-se por relação tudo o que envolve a comunicação, interação, envolvimento e empatia…


Relativamente aos pais, qual seria o comportamento dos pais durante os treinos ou a competição, se seriam críticos, desinteressados, pressionantes, treinadores de bancada, agressivos, superprotetores, como iria ser elaborada a estratégia de comunicação para eu ter noção dos feedbacks e ter a certeza que a mensagem enviada era clara e correta… 

Como refere António Rui Gomes (2011), os treinadores devem estar preparados para gerir a intervenção dos pais junto dos jovens atletas.

No que diz respeito aos jovens atletas, saber quais as expetativas, os medos, anseios, a motivação para a prática desportiva, comportamentos, e fundamentalmente: o aspeto cultural!

Quanto a mim, enquanto treinador, sabia que a minha imagem e trabalho iriam ser refletidas na aprendizagem diária dos atletas, na sua motivação, empenho e, consequentemente, evolução da prática desportiva, neste caso a aprendizagem do futebol.

   
Sabendo que a língua poderia ser um grande obstáculo, teria de efetuar um trabalho de base com o meu treinador adjunto, além de todas as regras pré-estabelecidas para o normal desenvolvimento do processo de treino, explicar qual a minha forma de trabalhar, objetivos, dinâmicas e ressalvar que o mais importante no processo de treino de jovens é o bem-estar, a alegria e motivação da criança, porque estas nuances potenciam a aprendizagem.

Após os primeiros treinos, como em qualquer processo de aprendizagem, fui-me inteirando acerca de comportamentos, e tomadas de decisão por parte dos pais e dos próprios atletas. Apesar de estabelecermos, eu e o Ricardo, com diferentes grupos, algumas regras elementares para o bom e salutar funcionamento da academia, há aspetos culturais que “condicionam” o normal desenvolvimento do treino.


Alguns episódios engraçados, e caricatos, aconteceram nos primeiros treinos. Recordo-me de na primeira semana um atleta ter começado a transpirar, devido ao treino, e uma mãe pediu-me para parar o exercício porque queria limpar o suor do filho…ou numa pausa para beber água, durante o treino, ver um pai a dar um bolo de chocolate, bolachas e um sumo de laranja para o filho comer e continuar a treinar… Isto demonstra um pouco uma das características mais comuns nos pais Chineses: “Superprotetores”.

O facto de após explicarmos que os comportamentos, anteriormente descritos, não deveriam ser cometidos e o porquê, fez com que os pais não repetissem tal procedimento, o que demonstra outra característica inerente: “cooperantes e respeitadores”.

Também há os pais “treinadores de bancada”/pressionantes, que passam o treino a dar indicações aos filhos, quase dentro do campo, e quando eles cometem um erro criticam o filho de forma agressiva. Nestas situações, tentamos no final do treino falar com estes pais e explicar-lhes, entre outros fatores, que esse comportamento acentua a pressão que o filho poderá sentir durante o treino ao transformarem um momento que se quer de aprendizagem, desenvolvimento entroncado na satisfação e prazer, num momento de pressão, angústia e que pode levar à desistência.

Uma situação que nunca me tinha acontecido está relacionada com o facto de nas duas primeiras semanas ter tido alguma dificuldade para explicar a um pai (neste caso uma mãe) que o treino era só para os jovens atletas, pois a mãe fazia questão de querer integrar os exercícios dizendo-me que se pudesse treinar em casa também conseguiria treinar o filho… Demorou duas semanas, mas nada que conversas explicações e exemplos práticos não resolvessem.


Neste momento, e decorridos 7 meses desta magnífica experiência constato que a principal característica dos pais está relacionada com a superprotecção e respeito mútuo. Na minha opinião a primeira está relacionada com o facto de o treino e o futebol ainda serem um pouco uma ciência/atividade desconhecida para a maioria, no que diz respeito a regras, hábitos e rotinas, a segunda característica é cultural, são por norma respeitadores e essa característica aumenta exponencialmente quando sabem que trabalhamos em prol do desenvolvimento dos filhos.


Quanto aos jovens atletas, a alegria com que treinam, a vontade com que querem aprender, espelham a nossa relação e demonstram a empatia existente diariamente.

Mas é para isso que aqui estamos….

Todos os dias uma aprendizagem, uma aprendizagem diária.

Nuno Gomes 
Licenciado em Ciências do Desporto - Motricidade Humana; pelo ISEIT-Piaget
Mestrando em Ensino de Educação Física nos Ensinos Básico e Secundário; ISEIT-Piaget
Treinador de Futebol na Academia Winning League Luis Figo - China

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