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domingo, 20 de março de 2016

Uma viagem entre Bragança e Abrantes, feita de Bicicleta. Parte 1.


(crónica de Carlos Bernardo)

Dia 19 de Outubro de 2014, o dia em que completaria 30 anos, sim 30 anos. Sou um bocado lamechas nestas coisas, apesar de este ser um dia como tantos outros, em que Sol nasce a Leste e se põe a Oeste, para mim seria um dia diferente, não só por fazer anos, mas mais porque simbolicamente representa uma zona de fronteira, entre a juventude e a idade …unh!!… idade um bocadinho mais adulta (não fui eu que inventei isto, mas vivo num Mundo que acredita nestas coisas e acaba por me afectar).

Pois bem, após pensar um pouco no que iria fazer nesta data, cheguei a dois objectivos: primeiro, tinha de passá-lo com as pessoas da minha vida; segundo, gostaria de no futuro me lembrar deste dia, positivamente é claro.

Após estes pontos, rapidamente cheguei à conclusão que teria de ser uma viagem, mais que uma viagem, uma aventura, e aí teria de entrar a bicicleta. Para cumprir o primeiro ponto (passar o dia 19 com quem mais gosto), teria de começar num ponto B, para chegar no dia 19 ao ponto A, a minha casa. Num flash, surgiu a ideia de Bragança para o ponto B e rapidamente ficou definida Bragança para o ponto B.

Dia 0 - 12/10/2014  Preparação da viagem

Tenho muita sorte. Tenho uns pais e uma namorada que aturam e participam nestas minhas maluquices (tenho de escrever isto em primeiro lugar, porque vão existir mais aventuras e tenho de manter a moral em cima).

Na semana anterior, para além de uns treinos ligeiros na bicicleta, tracei um plano inicial do percurso, para cada um dos dias de viagem, sempre com pontos de fuga, etapas abreviadas ou possibilidade de seguir um novo caminho. Fiz uma lista de material a levar, que não poderia ser muito, apenas o essencial, já que iria levar uma mochila nas costas e não o comum alforge de bicicleta, normal para quem viaja em longas distâncias.

Com o aproximar do fim de semana da partida, confirmavam-se as minhas piores previsões, iria estar muito mau tempo, pelo menos nos primeiros dias de viagem. Confesso que esta questão do tempo me deixou algo ansioso, mas sem por em causa a viagem, pensei sempre: "Ok, pelo menos não preciso ocupar lugar na mala com o protector solar".

Na manhã do dia 12, tinha a mochila pronta e a bicicleta impecável, aqui o meu rico paizinho, que é o meu mecânico oficial (acho que ele não sabe disto), teve um papel fundamental, a minha "menina" brilhava e apresentava uma postura bastante fiável. A bicicleta, como é obvio representa aqui um papel fundamental, já que vou estar tantas vezes isolado, fazer centenas de quilómetros, por vezes longe das condições ideais, passar por adversidades, cansaço, etc, a bicicleta, tal como um arma numa guerra, não pode falhar, não pode ser um problema e a confiança tem que ser total. Felizmente a minha bicicleta deu-me 0 problemas.

Lá arranquei para Bragança, os meus pais iam-me levar. Estava a chover muito e o meu Pai ainda soltou "É mesmo para ir!?"... nem respondi. Passados 10 minutos na auto-estrada, pensava como iria ser a minha jornada, se tinha trazido tudo... parei aqui... "o meu GPS?", pensei eu, "não me lembro de o ver junto do restante material", quando estes pensamentos se apoderam sobre mim, não penso muito mais, disse "Pai, pára o carro, não sei se tenho o GPS na mochila", o meu Pai parou, eu saí do carro, lá estava estava o GPS, siga caminho, passados 5 minutos, "Os meus sapatos da bicicleta!?", à segunda era verdade, os sapatos tinham ficado em casa, com 30km feitos, era tempo de voltar a casa, só pensei "Ok, é chato, mas era bem pior se tivesse dado pela falta deles já em Bragança", voltei a casa, sapatos no carro, siga caminho, de vez.

Cheguei a Bragança por volta da hora de almoço e continuava a chover. Precisava de proteínas para a longa jornada que aí vinha, no centro histórico de Bragança, encontrei o Restaurante Solar Bragançano, onde comi um belo Naco Mirandês e em seguida confirmando a afamada arte de bem receber das gentes do Norte, conversei um pouco com o dono do restaurante, falou-me da sua vida e eu falei-lhe da minha. A minha viagem, apesar de ainda não ter feito qualquer quilómetro de bicicleta, começara aqui. Para mim viajar é isto, partilhar experiências, uma troca tão justa como rica. Após falar da minha viagem ao simpático senhor, ele disse-me "qual a taxa de alcoólica permitida para quem anda de bicicleta?"... emiti uns sons, mas acho que nem respondi nada, pois não estava a perceber o porquê da questão, sem eu responder alguma coisa em concreto, o senhor concluiu "É que tenho aqui uma garrafa de vinho para lhe oferecer, para a viagem". Assim se fazem bons clientes.

Cheguei à Pousada da Juventude de Bragança, onde iria dormir e de onde iria partir no dia seguinte. Um beijinho na Mãe e um abraço no Pai. Descansar bem, pois sabia que não vinha aí coisa fácil. Chovia torrencialmente. (Ahh, também me tinha esquecido dos bidons para água, desta vez foi a Sportzone que me safou). 

…dia 1 de viagem no próximo mês!

Carlos Bernardo

Nascido e criado em Abrantes, onde vive e nunca desejou ser de outro lugar. Apesar disso adora viajar. Mais do que uma foto de viagem, gosta de uma boa conversa. Criou o blog O Meu Escritório é lá Fora! em 2013. Foi nomeado para melhor Blog de Viagens Pessoal, no BTL Travel Blogger Awards, e considerado como um dos 10 melhores blogs de viagem nacionais.

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