(crónica de Nuno Gil)
É muito
comum, no desporto infanto-juvenil, verificar a existência de treinadores que
pedem aos seus atletas para não praticarem outros desportos federados,
escolares ou informais, e alguns mais radicalistas até pedem aos atletas para
pedir dispensa das aulas de educação física antes de determinadas competições.
A desculpa mais utilizada para justificar este pedido é o perigo de haver uma
lesão nas outras atividades ou o perigo de haver sobrecarga de treino por
praticar diferentes atividades.
A
perpetuação deste tipo de pensamento, associados à diminuição da atividade
física da maioria das crianças fora do contexto desportivo ou curricular, sendo
que neste último se assiste nos últimos anos a uma redução da carga semanal ou
mesmo a supressão total como acontece na maior parte das escolas do 1ºCEB onde a
expressão físico motora não é leccionada, está a contribuir para o
desenvolvimento duma formação desportiva insuficiente, com as consequências
nefastas em primeira instância para a formação integral de cada indivíduo e em
segunda instância para o aparecimento de talentos desportivos.
Assim, esta
situação é grave, pois quando se devia estar a dar uma formação multivariada,
estamos a restringir o desenvolvimento de competências básicas essenciais,
limitando, fruto duma especialização desportiva injustificada.
Paralelamente
a esta prática ocorre muitas vezes outra prática que poderá restringir ainda
mais o desenvolvimento e optimização de competências, a especialização na
função dentro da modalidade, isto é, em função das características morfológicas
do atleta é lhe “atribuída” uma função dentro da equipa, quando em minha
opinião os atletas e em especial os mais novos deveriam adquirir competências
em todas as funções do jogo, aumentando assim o seu conhecimento sobre o jogo,
uma vez que melhorando o seu conhecimento das necessidades das diferentes
funções do jogo consegue-se melhores desempenhos na função que na fase mais
avançada do seu desenvolvimento desportivo lhe sejam atribuidas, isto é, em
termos práticos, se eu enquanto defesa central conhecer muito bem as funções do
avançado centro, conseguirei antecipar as ações deste e conseguirei assim
executar a minha função de forma mais eficaz.
Mas a prática multivariada dentro
do jogo tem outras vantagens, senão vejamos dois exemplos: no futebol um
“gordinho” com pouca mobilidade aos 8 anos é normalmente encaminhado para a
baliza, ignorando-se que fruto do seu crescimento e maturação, esse pequeno,
poderá aos 13 anos ser o mais alto e
mais rápido da equipa; e no basquetebol à criança mais alta aos 10 anos é
normalmente atribuída a função de poste, esquecendo-se que fruto do crescimento
e maturação, esse “grandalhão”, poderá aos 13 anos passar a ser o mais baixo da
equipa. Sendo que nestes dois casos a prática especializada numa determinada
função em idades mais baixas, fruto das suas características morfológicas, poderá
ser um forte constrangimento ao seu desenvolvimento integral na modalidade,
quando as diferenças maturacionais se atenuam, e estes jovens, apenas têm
vários anos de prática numa função que de um momento para o outro poderá passar
a ser a menos adequada para as suas características pessoais.
Termino
deixando, para reflexão, uma frase dum guru da formação em Portugal, António
Fonte Santa: “Nos escalões de formação mais baixos devemos preocuparmo-nos
com a formação do jogador enquanto ser
individual e não com a formação da equipa.”
Nuno Gil
Licenciado em ciências do desporto, pela FCDEF-UC
Mestre em treino do jovem atleta, pela FMH-UTL
Doutorando em ciências do desporto, na FCDEF-UC
Professor de educação física, na escola secundária Dr. Manuel Fernandes
Ex-treinador desportivo
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