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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Especialização: na modalidade e/ou na função dentro desta


(crónica de Nuno Gil)

É muito comum, no desporto infanto-juvenil, verificar a existência de treinadores que pedem aos seus atletas para não praticarem outros desportos federados, escolares ou informais, e alguns mais radicalistas até pedem aos atletas para pedir dispensa das aulas de educação física antes de determinadas competições. A desculpa mais utilizada para justificar este pedido é o perigo de haver uma lesão nas outras atividades ou o perigo de haver sobrecarga de treino por praticar diferentes atividades.

A perpetuação deste tipo de pensamento, associados à diminuição da atividade física da maioria das crianças fora do contexto desportivo ou curricular, sendo que neste último se assiste nos últimos anos a uma redução da carga semanal ou mesmo a supressão total como acontece na maior parte das escolas do 1ºCEB onde a expressão físico motora não é leccionada, está a contribuir para o desenvolvimento duma formação desportiva insuficiente, com as consequências nefastas em primeira instância para a formação integral de cada indivíduo e em segunda instância para o aparecimento de talentos desportivos.

Assim, esta situação é grave, pois quando se devia estar a dar uma formação multivariada, estamos a restringir o desenvolvimento de competências básicas essenciais, limitando, fruto duma especialização desportiva injustificada.

Paralelamente a esta prática ocorre muitas vezes outra prática que poderá restringir ainda mais o desenvolvimento e optimização de competências, a especialização na função dentro da modalidade, isto é, em função das características morfológicas do atleta é lhe “atribuída” uma função dentro da equipa, quando em minha opinião os atletas e em especial os mais novos deveriam adquirir competências em todas as funções do jogo, aumentando assim o seu conhecimento sobre o jogo, uma vez que melhorando o seu conhecimento das necessidades das diferentes funções do jogo consegue-se melhores desempenhos na função que na fase mais avançada do seu desenvolvimento desportivo lhe sejam atribuidas, isto é, em termos práticos, se eu enquanto defesa central conhecer muito bem as funções do avançado centro, conseguirei antecipar as ações deste e conseguirei assim executar a minha função de forma mais eficaz. 

Mas a prática multivariada dentro do jogo tem outras vantagens, senão vejamos dois exemplos: no futebol um “gordinho” com pouca mobilidade aos 8 anos é normalmente encaminhado para a baliza, ignorando-se que fruto do seu crescimento e maturação, esse pequeno, poderá aos 13 anos ser  o mais alto e mais rápido da equipa; e no basquetebol à criança mais alta aos 10 anos é normalmente atribuída a função de poste, esquecendo-se que fruto do crescimento e maturação, esse “grandalhão”, poderá aos 13 anos passar a ser o mais baixo da equipa. Sendo que nestes dois casos a prática especializada numa determinada função em idades mais baixas, fruto das suas características morfológicas, poderá ser um forte constrangimento ao seu desenvolvimento integral na modalidade, quando as diferenças maturacionais se atenuam, e estes jovens, apenas têm vários anos de prática numa função que de um momento para o outro poderá passar a ser a menos adequada para as suas características pessoais.

Termino deixando, para reflexão, uma frase dum guru da formação em Portugal, António Fonte Santa: “Nos escalões de formação mais baixos devemos preocuparmo-nos com a formação do jogador enquanto ser individual e não com a formação da equipa.” 

Nuno Gil
Licenciado em ciências do desporto, pela FCDEF-UC
Mestre em treino do jovem atleta, pela FMH-UTL
Doutorando em ciências do desporto, na FCDEF-UC
Professor de educação física, na escola secundária Dr. Manuel Fernandes
Ex-treinador desportivo

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